domingo, 10 de abril de 2011

Esquecida...


Karumi estava faminta. Teria de roubar algo para comer. Claro, menina de rua, órfã. Não tinha escolha a não ser roubar ou pedir. Ela apenas furtava. Pegava quando ninguém estava vendo. E pegava apenas o necessário.
 Andava com os braços envolvidos em seu abdome, pois a fome tinha saído de incomoda para dolorosa. Desde à tarde do dia anterior não comia nada. Conforme caminhava, sentia as pedrinhas do asfalto ferindo a sola de seus pés. Mas estava tão adaptada, que nem ligava mais. De repente, viu a solução da sua fome.
 Um caminhão de salgadinhos parado, com o compartimento de cargas aberto e ninguém cuidando da carga. Ela semicerrou os olhos e viu que a carga era de salgadinhos fritos. Ela adorava salgadinhos.
 Começou a correr para se aproximar. Seus passos eram rápidos, ágeis. Parecia-se com uma ladra persa, pois desde que fugira do orfanato, aprendeu como é ser sem-teto na vida real e não nos livros, onde tudo era politicamente-correto.
 Ela se aproximou, esperou um pouco em sua paciente aflição. E agora era a hora. Pulou para dentro do compartimento de cargas, e viu o quão grande era. Viu alguns plásticos protegendo as embalagens empilhadas. Aproximou-se de uma, com as mãos, unhas e dentes, começou a rasgá-lo. Ela podia ouvir o barulho do plástico se partindo ao meio e algumas vezes quando resvalava nas embalagens de salgadinho.
 Finalmente tinha espaço suficiente para pegar alguns ali. Quando se encostou ao primeiro, o estômago pareceu berrar um: Eu quero. Quando os dedos resvalaram no segundo, ela viu alguém chegar.
_O que pensa que está fazendo, sua putinha?! – Disse um cara gordo e nojento.
 Ela o olhou com medo e desprezo. Conhecia bem aquele tipo de... “Pessoa”. Ele era grande para cima e para os lados. No canto de sua boca e um pouco na barba, tinha comida. Ele era meio careca. Tinha peitos... Os olhos ainda com remelas, o que dizia que ele estava dormindo ou não lavou a cara. Argh! Que nojo!
 Karumi acabou encurralada pelo homem nojento. Ele agarrou o braço dela com muita força. Ela tentava afrouxar a mão dele, mas ela estava muito fraca. A fome e a fraqueza eram muitas.
 Okaru, o homem nojento, teve pensamentos tão sórdidos com a pobre Karumi. Ela mesma os pressentiu quando olhou nos olhos dele. Quando ouviu mais duas vozes masculinas no local, ela finalmente teve a brecha que precisava. Com toda a força que lhe restava, bateu suas unhas contra o pescoço de Okaru, que acometido pela dor a soltou. Ela correu. Os dois homens tentaram segurá-la, mas ela os empurrou e pôs-se a correr. Eles foram atrás dela, mas ela era veloz.
                                                                                    ***
 Manji saiu do carro e deixou Pepe, seu cachorro ali dentro. Foi ali pagar a gasolina com a qual havia abastecido seu carro. Uma autentica Mitsubishi. Ele adorava aquele carro, pois tinha suado a camisa para comprá-la. Ele iria passar uns dias fora, em uma casa que ficava em Kunamoto, na parte mais sossegada. Estava saindo de Yokohama. Ia ser bom passar uns dias calmos. Só para variar.
 Sem que ele percebesse, alguém entrou em seu carro. Pepe latiu duas vezes para Karumi, enquanto ela se jogava no porta-malas para se esconder. Ela acalmou Pepe, da mesma forma como acalmava os cães de rua com quem, por vezes, ela brincava.
 Manji estava voltando e ela ficou ajustada “confortavelmente” no porta-malas. Ele abriu a porta e colocou a música de Aya Ueto para tocar. Pepe abanou o rabo freneticamente, feliz por seu dono ter chego ao carro. Fechou-a e colocou o carro em movimento.
 Em pouco tempo, Karumi estava extremamente fraca... Começou a ficar com sono e o coração batia lentamente, em um ritmo a pouco desconhecido... Sentiu que não tinha mais forças, pois o corpo se consumia aos pouquinhos. O estômago parou de chiar e ela adormeceu...
Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário